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“O trabalho físico permitiu transportar o meu ténis para um nível muito mais elevado”

Rui Machado foi o 3º melhor tenista Português da história em Portugal alcançando a extraordinária classificação de 59º do ranking ATP. Conseguiu 8 títulos no circuito “Challenger”, 10 presenças no quadro principal em torneios do “Grand Slam”, 28 chamadas à selecção Portuguesa da taça “Davis” e quatro títulos de campeão nacional.
Nós que acompanhámos a sua carreira desde o início, sabemos que era um jogador inteligente e muito, muito aguerrido. O seu percurso constitui um motivo de grande orgulho para cidade de Faro e é uma referência para muitos atletas da modalidade. Marcou uma geração de praticantes e consideramos que é um dos símbolos de uma mudança no ténis Nacional. Nos últimos anos, alcançar o top 100 passou a ser um objetivo ambicioso mas concretizável pelos tenistas de topo. Afirmamos por isso, que o Rui é uma das figuras que contribuiu para que a modalidade desse um salto qualitativo, se afirmasse e aumentasse a sua massa crítica a nível nacional.
Era impossível dar inicio à entrevista sem fazermos esta justa homenagem.

1- Com uma carreira vivida de forma tão intensa, deve ter sido difícil dizer adeus aos courts como jogador. Apesar de termos constado que se despediu de forma serena, foi com certeza uma grande mudança. Gostaria de falar mais uma vez sobre esse processo?

Foi uma decisão muito ponderada e agora passados mais de 2 anos continuo a pensar que foi uma decisão acertada e no timing certo. De certa forma era a decisão que respeitava a minha maneira de estar na vida, que é estar de corpo e alma nos projectos em que estou envolvido.

2- O dia a dia de um atleta de alta competição, está normalmente associado a uma grande disciplina, rigor e dedicação tanto quando está em competição como numa fase de preparação. Como era um dia habitual do Rui?

O dia a dia de todos os desportistas profissionais está naturalmente associado a uma enorme exigência a todos os níveis. Tudo o que um atleta faz ou deixa de fazer conta. Desde o treino, o descanso, a alimentação, etc.
Um dia normal fora de competição, podia passar por 2 h pela manhã de treino de ténis, mais 1h de trabalho complementar físico, outra sessão de 1h30min/2 h de treino de ténis mais uma sessão de 1h/1h30min de treino de preparação física no ginásio ou no court de ténis. A somar aos treinos é preciso adicionar as sessões de recuperação no final do dia bem como algumas sessões de fisioterapia logo pela manhã quando necessário.

3- Foi cedo treinar para Espanha para um centro de alto rendimento numa fase crucial como jogador. Acabaria por voltar a Portugal e somar êxitos atrás de êxitos. Gostaria de destacar como estas diferentes experiências contribuíram para o seu sucesso e desenvolvimento como atleta?

Fui para Espanha 1999, com 15 anos. Naquela altura e analisando com a distância necessária penso que tomei a melhor decisão. Em Espanha encontrei uma envolvência excelente, uma mentalidade mais profissional e uma estrutura muito organizada. Em Portugal o número de jogadores que se dedicavam ao ténis de forma profissional era muito reduzido e isso limitava as opções para ficar cá.
Um dos aspectos fulcrais para rumar a Espanha, foi a possibilidade de conciliar melhor a vida desportiva com a vida académica, e isso fez toda a diferença. Felizmente o cenário atual é totalmente diferente, onde existem muitos mais jogadores a tentarem o profissionalismo, mais treinadores dedicados à competição e muitos torneios internacionais organizados em Portugal.
Voltei para Portugal em 2006 para recuperar uma lesão no joelho esquerdo, que me afastou dos courts durante ano e meio e por cá fiquei.
Recomeçei a treinar com um excelente profissional como treinador, o João Cunha e Silva, seguido de Bernardo Mota e por fim André Lopes, com quem atingi os meus melhores resultados. A lesão prolongada fez-me amadurecer e as coisas depois correram muito melhor.

4- Teve uma carreira rica em êxitos e, como é natural na alta competição, foi também marcada por alguns momentos delicados, nomeadamente lesões, que conseguiu superar. Acha que o trabalho físico que foi desenvolvido em paralelo com o treino de campo foi importante para a sua recuperação, desempenho e longevidade na modalidade?

O trabalho físico é fundamental. Hoje em dia não há nenhum atleta profissional que não dê máxima importância aos aspetos físicos trabalhando com 1 ou mais profissionais da área na equipa.
No meu caso o trabalho físico permitiu transportar o meu ténis para um nível muito mais elevado. Sempre apoiei muito o meu jogo nas minhas capacidades físicas e mentais.
Hoje está provado que os jogadores de ténis conseguem competir a um alto nível durante muitos mais anos devido a toda preparação e o cuidado que têm com o seu corpo.

5- Após abandonar os courts no verão de 2016, assumiu as funções de diretor técnico nacional, coordenando o Centro de Alto Rendimento (CAR) do Jamor. Em 2019 vai abraçar mais um desafio e irá ser o Selecionador Nacional na Taça Davis, curiosamente, contando a seu lado, com outro Farense como treinador, o Gonçalo Nicau. Como é estarem “do outro lado” e contribuirem para o sucesso dos melhores jogadores portugueses da atualidade e assistirem à afirmação das novas promessas do ténis Nacional?

Aceitei o convite da direção da Federação Portuguesa de Ténis porque considerei que era um excelente desafio. Penso que ao longo da minha carreira, ajudei indiretamente o ténis português a crescer, mas agora a responsabilidade é outra. Ser responsável pela carreira de alguns dos melhores talentos nacionais ou ser o capitão da Taça Davis numa época onde temos uma Seleção fortíssima, faz-me sentir totalmente preenchido a nível profissional.

6- Na Federação contam também com um preparador físico de forma a potenciarem ao máximo o rendimento e a garantirem a integridade e a longevidade dos atletas no campo. Pode falar-nos como fomentam a comunicação entre o departamento técnico e o de preparação física tendo em vista estas questões? Quais as principais vantagens de trabalharem em complementaridade e de contarem com um elemento especializado em preparação física?

Sim, desde o primeiro dia que o Preparador Físico faz parte da equipa técnica do Centro de Alto Rendimento.
O Paulo Figueiredo é o responsável pela área física, mas existe uma grande coordenação entre os treinadores de ténis (Gonçalo Nicau, Hugo Anão e Neuza Silva) e o Preparador Fisico. A comunicação entre a equipa é fundamental para retirar o melhor rendimento dos atletas.
Temos mecanismos implementados com recurso a tecnologia para avaliar o estado físico dos atletas e poder adaptar os treinos diários de forma mais acertada.
O Preparador Físico também tem um papel fundamental na análise das capacidades físicas dos atletas para uma rápida e optimizada movimentação em campo e é nessa área que é feito um trabalho em conjunto muito importante.