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Exercício e Cancro. Qual a relação? Por Tiago Rafael Moreira

Exercício Físico e Cancro: Qual a relação? Por Tiago Rafael Moreira

A prática de Exercício Físico tem ganho a cada dia novos adeptos e, como consequência, temos assistido a um aumento do número de praticantes regulares. Todos os dias nos chega a informação de que a prática regular de Exercício Físico é fundamental para a promoção de saúde física e psicológica. A nível mental, as principais desordens relatadas são a depressão e ansiedade, que afeta a capacidade de concentração, o sono e a capacidade de realização das tarefas do dia-a-dia. A prática regular de exercício tem-se mostrado eficaz como forma de prevenção e coadjuvante no tratamento dessas mesmas desordens 3.

A nível físico e fisiológico, o Exercício Físico é visto por alguns autores como um “multi comprimido” para a prevenção de doenças. Dentro destas doenças estão as doenças cardíacas, doenças neurais, desordens metabólicas como a diabetes, e o cancro 8.


O Cancro é por muitos considerado a doença do século. Apesar dos níveis de incidência serem crescentes, o aumento da sobrevivência é também uma realidade. Esta realidade deve em muito ao avanço da ciência e à eficácia dos tratamentos que desenvolveu. Para tratar o cancro, recorre-se frequentemente à quimioterapia, radioterapia, cirurgia e dependendo dos cancros, à terapia hormonal.


Tal como em todas as terapias, os tratamentos utilizados para o tratamento do cancro estão associados a efeitos secundários adversos. No caso dos doentes com Cancro da Mama, há relatos de efeitos criados pela quimioterapia como Desregulações Intestinais, Dispneia, Redução do Sistema Imunitário, Neuropatia, Náuseas, Vómitos, Insónias, Perda de Apetite, Fadiga, Alterações Cognitivas e Problemas Cardíacos, associados à elevada toxicidade da medicação10. A Radioterapia, para além de criar irritação cutânea, pode causar alterações na mobilidade da parede torácica e insuficiência respiratória por criação de fibrose nos tecidos11.

A cirurgia, dependendo da área afetada, poderá despoletar redução da mobilidade de ombro e, aquando do esvaziamento axilar, aumento da probabilidade de Linfedema. As mulheres com terapia hormonal para o Cancro da Mama têm também maior risco de desenvolvimento de problemas osteoarticulares e osteoporose9.

No cancro, o Exercício Físico atua de forma sistémica, permitindo o organismo controlar a quantidade de hormonas sexuais livres, reduzir o stress oxidativo do DNA celular e bloquear a libertação de citocinas pró-inflamatórias no organismo. Por outro lado, promove a libertação de citocinas anti-inflamatórias e promove uma melhor função do sistema imunitário, agindo assim como uma forma preventiva de desenvolvimento da doença oncológica8. A inatividade física está associada ao risco elevado de aparecimento de alguns tipos de cancro como Mama, Colon e Próstata4.


As primeiras investigações na área das Ciências do Desporto na Oncologia procuraram verificar os efeitos do Exercício Físico em sobreviventes do Cancro da Mama. Como conclusão, diversos estudos apontam para uma melhoria significativa da Qualidade de Vida, das Capacidades Físicas Funcionais e da redução da Fadiga12.

Tiago Rafael Moreira Exercício e Cancro - PTX
As primeiras investigações na área das Ciências do Desporto na Oncologia procuraram verificar os efeitos do Exercício Físico em sobreviventes do Cancro da Mama. Como conclusão, diversos estudos apontam para uma melhoria significativa da Qualidade de Vida, das Capacidades Físicas Funcionais e da redução da Fadiga.


No que respeita à fase de tratamento com quimioterapia, a prática e Exercício Físico tem tido um olhar mais atento por parte de toda a população de profissionais de saúde e exercício. Este novo olhar para a prática regular de Exercício Físico durante a fase de tratamentos, surge na tentativa de, ao contrário do que se pensava há alguns anos não muito distantes, reduzir os efeitos secundários provocados pelos fármacos.

Os estudos têm-nos demonstrado que a manutenção de uma atividade regular nesta fase tem resultados significativos na redução da Fadiga e Disfunções Cognitivas, redução da Neuropatia1, Náuseas, Vómitos, Insónias, Perda de Apetite e, estudos mais recentes, inclusive aquele desenvolvido pelo grupo de investigação do autor, demonstram que o Exercício Físico pode ajudar a prevenir os efeitos cardiotóxicos provocados pela quimioterapia5.

Exercício físico no doente oncológico - Tiago Rafael Moreira
Os estudos têm-nos demonstrado que a manutenção de uma atividade regular nesta fase tem resultados significativos na redução da Fadiga e Disfunções Cognitivas, redução da Neuropatia1, Náuseas, Vómitos, Insónias, Perda de Apetite e, estudos mais recentes, inclusive aquele desenvolvido pelo grupo de investigação do autor, demonstram que o Exercício Físico pode ajudar a prevenir os efeitos cardiotóxicos provocados pela quimioterapia5.


Durante a fase de Radioterapia, os cuidados durante a prática devem ter em atenção a sensibilidade da zona irradiada e, por isso, é de evitar o contacto e fricção dessa zona. As vantagens da prática regular de Exercício Físico nesta fase passam pela prevenção da perda de capacidades cardiorrespiratórias e a redução dos níveis de fadiga2.


No caso da cirurgia, o principal receio que existe é o de desenvolvimento de Linfedema. Houve também durante muito tempo a falácia de que a prática de exercício poderia colocar em risco a mulher com esvaziamento axilar. No entanto, a ciência veio comprovar que o Exercício não é fator de risco para o desenvolvimento ou agravamento do Linfedema7. Além disso, há melhoria da mobilidade do ombro aquando de um programa de Exercício Físico acompanhado.


Está também documentado que o Exercício Físico permite prevenir a perda de Densidade Mineral Óssea e, como tal, prevenir o aparecimento de osteoporose6.
A prática regular de Exercício Físico tem sido, assim, fundamental para amenizar os efeitos secundários e melhorar a Qualidade de Vida em todas as fases do tratamento do Cancro da Mama. As vantagens estendem-se também a outros tipos de doenças oncológicas.

Tiago Rafael Moreira
Personal Trainer
Doutorando em Ciências do Desporto
Coordenador Quality Onco Life – Exercício Físico em Oncologia
Pós-graduado em Fisiologia e Exercício Clínico
Vencedor Prémio de Investigação 2018

Referências:
1 F. Duregon, B. Vendramin, V. Bullo, S. Gobbo, L. Cugusi, A. Di Blasio, D. Neunhaeuserer, M. Zaccaria, M. Bergamin, and A. Ermolao, ‘Effects of Exercise on Cancer Patients Suffering Chemotherapy-Induced Peripheral Neuropathy Undergoing Treatment: A Systematic Review’, Crit Rev Oncol Hematol, 121 (2018), 90-100.
2 A. Lipsett, S. Barrett, F. Haruna, K. Mustian, and A. O’Donovan, ‘The Impact of Exercise During Adjuvant Radiotherapy for Breast Cancer on Fatigue and Quality of Life: A Systematic Review and Meta-Analysis’, Breast, 32 (2017), 144-55.
3 K. Mikkelsen, L. Stojanovska, M. Polenakovic, M. Bosevski, and V. Apostolopoulos, ‘Exercise and Mental Health’, Maturitas, 106 (2017), 48-56.
4 S. C. Moore, I. M. Lee, E. Weiderpass, P. T. Campbell, J. N. Sampson, C. M. Kitahara, S. K. Keadle, H. Arem, A. Berrington de Gonzalez, P. Hartge, H. O. Adami, C. K. Blair, K. B. Borch, E. Boyd, D. P. Check, A. Fournier, N. D. Freedman, M. Gunter, M. Johannson, K. T. Khaw, M. S. Linet, N. Orsini, Y. Park, E. Riboli, K. Robien, C. Schairer, H. Sesso, M. Spriggs, R. Van Dusen, A. Wolk, C. E. Matthews, and A. V. Patel, ‘Association of Leisure-Time Physical Activity with Risk of 26 Types of Cancer in 1.44 Million Adults’, JAMA Intern Med, 176 (2016), 816-25.
5 Tiago Rafael Moreira, ‘Efeitos De Um Programa De Exercício Físico Na Fração De Ejeção Ventricular Em Mulheres Em Tratamento Do Cancro Da Mama Com Quimioterapia’, (em publicação) (2020).
6 G. M. Pagnotti, M. Styner, G. Uzer, V. S. Patel, L. E. Wright, K. K. Ness, T. A. Guise, J. Rubin, and C. T. Rubin, ‘Combating Osteoporosis and Obesity with Exercise: Leveraging Cell Mechanosensitivity’, 15 (2019), 339-55.
7 D. Panchik, S. Masco, P. Zinnikas, B. Hillriegel, T. Lauder, E. Suttmann, V. Chinchilli, M. McBeth, and W. Hermann, ‘Effect of Exercise on Breast Cancer-Related Lymphedema: What the Lymphatic Surgeon Needs to Know’, J Reconstr Microsurg, 35 (2019), 37-45.
8 H. Pareja-Galeano, N. Garatachea, and A. Lucia, ‘Exercise as a Polypill for Chronic Diseases’, Prog Mol Biol Transl Sci, 135 (2015), 497-526.
9 T. D. Rachner, R. Coleman, P. Hadji, and L. C. Hofbauer, ‘Bone Health During Endocrine Therapy for Cancer’, Lancet Diabetes Endocrinol, 6 (2018), 901-10.
10 C. L. Shapiro, and A. Recht, ‘Side Effects of Adjuvant Treatment of Breast Cancer’, N Engl J Med, 344 (2001), 1997-2008.
11 M. M. Suesada, and H. A. Carvalho, ‘Impact of Thoracic Radiotherapy on Respiratory Function and Exercise Capacity in Patients with Breast Cancer’, 44 (2018), 469-76.
12 S. Van Dijck, P. Nelissen, H. Verbelen, W. Tjalma, and N. Gebruers, ‘The Effects of Physical Self-Management on Quality of Life in Breast Cancer Patients: A Systematic Review’, Breast, 28 (2016), 20-8.