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“Aumentar a eficiência para se diminuir o risco” por Rui Couto

“A leitura é para o intelecto o que o exercício é para o corpo”. Joseph Addison

Se a prescrição farmacológica não é igual para todos os doentes, fará sentido que a prescrição de Exercício Físico (EF) seja igual para todos os alunos?


Se o objetivo é poder olhar o aluno/cliente como uma pessoa, e não apenas como um conjunto de ossos e músculos ou uma máquina de gastar calorias, facilmente se percebe a importância de avaliarmos e identificarmos as suas limitações e necessidades, para melhor podermos pensar o processo de treino de forma individual, aumentando os seus níveis de eficiência, mas também a sua segurança.

As repercussões que a evolução cientifica e tecnológica têm no nosso dia a dia, tornam a vida mais facilitada, acomodando-nos a um menor esforço físico, e se juntarmos a nossa predisposição genética para poupar energia, fica claro que este cenário poderá tornar-se perigoso. É neste contexto sociocultural (e necessariamente atendendo aos diversos fatores que influenciam o comportamento humano) que a atuação do profissional de EF deve marcar a diferença, contrariando e revertendo a tendência dos crescentes níveis de sedentarismo que afetam o nosso país e o resto do mundo. Se não o fizermos e/ou considerarmos o caráter multideterminado do comportamento humano, a nossa capacidade de reverter os níveis de sedentarismo, assim como o seu impacto na saúde e bem-estar, tornar-se-á ainda menos eficaz.

Se o objetivo é poder olhar o aluno/cliente como uma pessoa, e não apenas como um conjunto de ossos e músculos ou uma máquina de gastar calorias, facilmente se percebe a importância de avaliarmos e identificarmos as suas limitações e necessidades, para melhor podermos pensar o processo de treino de forma individual, aumentando os seus níveis de eficiência, mas também a sua segurança.
Se o objetivo é poder olhar o aluno/cliente como uma pessoa, e não apenas como um conjunto de ossos e músculos ou uma máquina de gastar calorias, facilmente se percebe a importância de avaliarmos e identificarmos as suas limitações e necessidades, para melhor podermos pensar o processo de treino de forma individual, aumentando os seus níveis de eficiência, mas também a sua segurança – Rui Couto


Da mesma forma que não se começa a construir uma casa pelo telhado, também o desenvolvimento de um processo de treino não deve ser pensado em quantas calorias o aluno gasta durante a sessão ou com que corpo estará umas semanas após o começo, pois o risco de errar é grande. Por vezes, fica a sensação de que se o aluno não se lesionar, será já um indicador de “sucesso”. Sabemos que apesar de não ser assim, na maioria das vezes, estas abordagens, parecem não ser suficientes para que o aluno consiga uma adesão duradoura, levando a que a disposição para continuar a treinar não seja mantida ao longo dos anos.
Citando o Dr. Abel Salazar, “O médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe.”. Na nossa área, não é diferente. Penso ser fundamental ter consciência de que o comportamento humano é complexo, e se se negligenciarem o conhecimento dos aspetos psicológicos, nutricionais, higiene de sono, ou se nos alhearmos à contextualização social e cultural, cria-se um efeito dominó com resultados pouco animadores.

Por outro lado, mas igualmente importante, não é possível pensar o treino ou o comportamento humano sem considerarmos o complexo funcionamento do cérebro humano, pelo que faz sentido adotar-se uma postura humilde, que nos permita prescrever orientações seguras e com maior eficiência num processo multifatorial como este. Numa perspetiva evolutiva, e considerando a evolução da nossa espécie mais concretamente, da evolução do cérebro humano, encontramos vários condicionalismos, vieses e heurísticas, e quando a estes se juntam questões genéticas, as crenças, experiência de vida, e os demais fatores multiculturais, compreende-se que o treino vai muito alem do “no pain, no gain”, “3×20 para tonificar” ou “3×8 para crescer”.

Como diz Kahneman, “SHAQV” (Só há aquilo que vês)*, mas esta visão torna-se ainda mais restrita quando é posta numa relação direta com a dimensão da nossa ignorância, já que, e ao contrário do que possamos usualmente pensar, nos proporciona mais dúvidas à medida que o nosso conhecimento aumenta. E é aqui que a humildade assume, de novo, um papel importantíssimo. Caso contrário, ficamos longe de conseguir raciocinar com melhor lucidez e agir com mais competência, pois, tal como nos alerta Carlo Rovelli, “A realidade não é o que parece”.

Em jeito de conclusão, penso que um profissional apaixonado e dedicado à profissão, e por consequência, aos seus alunos, olha para cada um deles de forma responsável e sensata, para que seja possível ajudá-lo a evoluir com a consciência do que se faz e do que é preciso continuar a (re)fazer, mantendo-os ativamente esclarecidos e motivados ao longo do tempo. É esta viagem e o permanente desafio de uma consciência e conhecimento partilhados, que melhor consolidarão o compromisso que todos sabemos e queremos renovar.

E, será bom nunca esquecermos que cada um deles é o amor da vida de alguém.

*”Não se consegue evitar lidar com a limitada informação que se possui como se fosse tudo aquilo que há para saber. Constroem-se as melhores histórias possíveis a partir de informação disponível e, se for uma boa história, acredita-se nela. Paradoxalmente, é mais fácil construir uma história coerente quando se sabe pouco, quando há menos peças para encaixar no puzzle. A nossa reconfortante convicção de que o mundo faz sentido baseia-se num alicerce seguro: a nossa capacidade quase ilimitada de ignorar a nossa ignorância”. Daniel Kahneman, em “Pensar Depressa e Devagar” (pág. 265-266).

Rui Couto

Licenciado em desporto e atividade física pela ESECB
Mestrado em EF pela FCDEF Coimbra
Prof. Exercício e Saúde e criador e representante da marca MSC (Mais Saúde Coimbra) Fitness